a forma que temos de um estar e de o outro ser e de como é impossível traduzir na única língua comum a diferença de sermos dois. sei que existo porque me tocam as coisas. sei dos países que não conheço porque mos mostram nos carimbos dos postais e das línguas que não falo pelos concertos a que vou quando saio mais cedo do trabalho. sei do sangue que morde e do calor que sou tão distinto daquele de onde estou. sei de Deus o que sei de mim e isso é o que me mostras todos os dias, por me acordares. sei que o corpo pode doer, que o coração bombeia chumbo prestes a ser disparado e a solidificar como memória encantatória de um encontro nocturno que o seria para sempre se não houvesse tempo e não amanhecesse todos os dias. mas sabemos dessa certeza como quem sabe do ar ou da água ou da pele ou do sal. sei da pequena ferida que tratamos com cal e levamos para o jardim para que o sol a queime e para que nunca se esqueça que houve noites.