vontade de pegar numa daquelas facas de cozinha quem vêm em grupos de quatro e nunca se usam e experimentar abrir o peito para ver o que está dentro. desconfio que o propósito daqueles sets de facas servem para isso mesmo: uma para descascar cenouras, uma para cortar pão e outra para abrir caminho pelo esterno. depois de perfurado o osso, usa-se a faca em largura, roda-se para afastar as costelas e lá dentro deve estar qualquer coisa: um coração, que isso é da fisiologia, uma mão cheia ( logo se via se uma mão chegava ) de artérias e veias e o resto. o resto dizem que está na cabeça, mas as cabeças abrem-se com pianos, bigornas, quedas violentas no passeio, ideias ou através dos olhos; dizem que por aí também é o caminho da alma, mas necessitariamos de uma colher daquelas de tirar gelado, que fazem bolas, uma coisa profissional. onde eu quero chegar, que é ao coração usando uma faca de cozinha, é à verificação visual ou palpável do que de facto se passa ali. aqui. no meio de mim. por lá a mão, sentir a massa de músculo e retirar qualquer objecto estranho à sua natureza fisiológica. isso incluiria também o amor, que não é fisiológico, ou se o é, faz mal ao coração, e portanto não se deve encontrar ali. uso devido dado ao set de facas de cozinha, ficaria apenas um coração pulsante mas só por questões de sobrevivência. nenhum corpo alheio alojado nas aurículas, nenhum sonho e nenhum desejo no miocárdio, que é a pele do coração. nenhuma emoção à flor da pele do meu coração. as emoções que venham ter comigo pela pele, que é o meu maior orgão e que tem como função quase principal proteger-me do meio externo e regular as trocas com o mesmo. ora a pele hidrata-se, está à mão. as emoções que me cheguem pela pele, pela ponta dos dedos, posso lê-las descritas pelos outros e ganhar com isso uma panóplia de ângulos que o meu coração toldado por um qualquer sentimento parasita não poderia discernir. um coração contaminado não é um coração imparcial. é um coração que parcela os recursos para poder continuar a bater, é um coração que se contraí com mais força e tem diástoles menos francas. é um coração que dói.